A produção agrícola e pecuária pode receber críticas como qualquer outro segmento da economia. Sobretudo quando na cadeia existirem produtores que não respeitam leis ambientais e trabalhistas. É normal haver a crítica e este espaço sempre defenderá a liberdade de a crítica ser feita com responsabilidade, método e compromisso. No entanto, é preciso lembrar que as críticas, no setor produtivo, exigem um filtro refinado. Caso contrário, o ambiente político partidário vai contaminando tudo. E trazendo descrédito. O concurso QualiCafé, é exemplo de como a crítica feita sem critério pode comprometer trabalho honesto de muita gente.
O QualiCafé é um concurso que busca valorizar a produção regional de cafés especiais. Todo o processo é feito de forma transparente. Desde a chamada dos parceiros privados para garantir as premiações e a realização do evento, a contratação dos Q Graders (os especialistas na avaliação da bebida), a publicação das empresas e a quantidade de recursos para premiação. Tudo é publicado no Diário Oficial e divulgado na imprensa local. A transparência, portanto, não é um gargalo. É uma rotina.
Outra crítica que se faz ao QualiCafé diz respeito a uma suposta “pulada de etapa”. A crítica se relaciona à propaganda oficial do Governo do Acre. Essa é uma crítica interessante. Quem defende esse ponto de vista observa os processos da cadeia produtiva do café como se fossem estanques: só quando todos os produtores de café do Acre finalizarem uma etapa da cadeia é que uma outra pode ser criada.
Por esse ritmo, um concurso como o QualiCafé não seria possível agora. Só quando todos os gargalos da cadeia produtiva do café estivessem resolvidos é que o concurso poderia ser realizado. Esse argumento induz à ideia de que o concurso é um mero instrumento de propaganda oficial do Governo do Acre para se autopromover.
Essa não é uma crítica honesta. Independente de quem esteja à frente do Governo ou da secretaria; independente de quem tenha trazido o QualiCafé para o Acre; independente dos motivos políticos que alimentem essa crítica, isso não é um argumento razoável.
Querer que todos os gargalos de uma cadeia produtiva sejam equacionados e resolvidos e só depois se pense em um concurso que avalie a qualidade do produto não tem aplicabilidade no mundo real. A realização do concurso não é um instrumento de propaganda para esconder os gargalos da cadeia produtiva.
O cafeicultor acreano vive os gargalos da cadeia produtiva na rotina. Ninguém precisa ditar a sequência para ele. As falhas são reais e rotineiras. Isso, no entanto, não exclui a possibilidade de ter reconhecido o trabalho quase artesanal de produzir cafés especiais.
É evidente que a questão da infraestrutura é um gargalo. Não só a infraestrutura rodoviária (ramais, pontes, trapiches), mas a infraestrutura energética. Essa questão do fornecimento de energia elétrica para o beneficiamento mínimo do café é um problema grave. A elaboração de uma política industrial que incentive a finalização integral do grão aqui mesmo no Acre também é outra carência. Há vários problemas. Eles não faltam. E nunca faltarão. Nem por isso, isso diminui a importância do QualiCafé. Ao contrário.
Sem contar que os resultados estão aparecendo. O cafeicultor tem respondido com muita qualidade. E isso tem sido reconhecido nacionalmente, inclusive. A presença de duas cafeicultoras do Acre como finalistas do Florada Premiada, da Três Corações é o mais recente exemplo.
E o fato de o Governo do Acre utilizar todo esse processo como elemento de propaganda é aquela parte da brincadeira que o produtor já está cansado de saber. É moeda barata, conhecida do cafeicultor. O produtor quer incentivo e condições estruturais para trabalhar. O resto é com ele.
