A região da tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia — formada pelos municípios de Assis Brasil, Bolpebra e Iñapari — aparece no contexto regional de expansão do garimpo ilegal e da circulação clandestina de mercúrio na Amazônia. A constatação está no estudo “Mercúrio na Amazônia: redes criminosas transnacionais, vulnerabilidade socioambiental e desafios para a governança”, elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O relatório analisa as rotas internacionais do metal, os impactos ambientais da mineração ilegal e a atuação de redes criminosas na região amazônica.
De acordo com o estudo, um dos principais polos de mineração ilegal está no departamento de Madre de Dios, no leste do Peru, área que faz fronteira direta com o Acre nas proximidades de Assis Brasil. A região mantém conexões logísticas com cidades acreanas da faixa de fronteira, como Brasiléia e Epitaciolândia, utilizadas para circulação de pessoas e mercadorias entre os países. O relatório estima que cerca de 40 mil garimpeiros informais atuem nessa área, sendo responsáveis por aproximadamente 70% da produção ilegal de ouro do Peru.
A proximidade geográfica com o território acreano faz com que o estado esteja inserido no contexto regional das cadeias logísticas ligadas à mineração ilegal, que envolvem a circulação de trabalhadores, equipamentos e insumos entre diferentes países da Amazônia. Entre os principais insumos utilizados está o mercúrio, metal empregado para separar o ouro dos sedimentos durante o processo de extração.
Segundo o levantamento, cerca de 3 mil toneladas de mercúrio foram despejadas nos rios da região de Madre de Dios ao longo das últimas duas décadas. No ambiente aquático, o metal pode se transformar em metilmercúrio, substância altamente tóxica que se acumula na cadeia alimentar e chega aos seres humanos principalmente por meio do consumo de peixes contaminados.
O estudo alerta que populações indígenas e ribeirinhas estão entre as mais vulneráveis à contaminação, devido à dependência do pescado como principal fonte de alimentação. Além disso, o relatório aponta que o Brasil não possui produção própria de mercúrio, o que torna o país dependente de importações e mais suscetível ao contrabando do metal, reforçando a necessidade de cooperação internacional e políticas integradas de monitoramento na região amazônica.
