Embrapa avança no controle da murcha do ciclame no Brasil

Estudo pioneiro fortalece diagnóstico, manejo e desenvolvimento de variedades resistentes após surto que afetou produção em Holambra. Ciclame é a planta ornamental mais consumida no país

Luiz Eduardo Souza

Pesquisadores da Embrapa realizaram, pela primeira vez no Brasil, o sequenciamento do genoma do fungo Fusarium oxysporum f. sp. cyclaminis (Focy), causador da murcha do ciclame. O ciclame é uma das plantas ornamentais mais consumidas no país. O avanço representa um marco científico no enfrentamento da doença que, em 2023, comprometeu mais de 70% da produção de Cyclamen persicum em estufas de Holambra, um dos principais polos de flores e plantas ornamentais das Américas.

O ciclame é uma planta valorizada pelas flores coloridas e pelo longo período de floração, sendo amplamente utilizada em jardins e ambientes internos. O surto registrado em 2023 provocou perdas expressivas, com mais de 4 mil plantas apresentando sintomas como amarelamento e murcha das folhas, descoloração vascular e morte dos bulbos, elevando custos de produção e exigindo intensificação dos tratamentos fitossanitários.

O sequenciamento completo do genoma da cepa CMAA 1919, hoje depositada na Coleção de Culturas de Microrganismos de Importância Ambiental e Agrícola da Embrapa Meio Ambiente, permitiu confirmar com precisão o agente causal da doença e ampliar o entendimento sobre sua biologia, patogenicidade e histórico evolutivo. Até então, a identificação do patógeno no Brasil baseava-se apenas em sintomas visíveis e testes de patogenicidade, sem suporte de dados moleculares.

Com as informações genéticas obtidas, os pesquisadores passam a contar com ferramentas mais precisas para diagnóstico, monitoramento e controle da doença. O mapeamento dos genes associados à virulência, à especificidade do hospedeiro e à adaptação ambiental abre caminho para o desenvolvimento de variedades resistentes, definição de fungicidas mais específicos e aprimoramento de técnicas de diagnóstico precoce.

A iniciativa também reforça a sustentabilidade e a competitividade do setor de flores em vasos, que responde por cerca de 40% do faturamento da floricultura nacional e movimenta aproximadamente R$ 19,5 bilhões por ano, o equivalente a cerca de US$ 3,5 bilhões. A integração entre biotecnologia, pesquisa aplicada e manejo sustentável tende a fortalecer a capacidade de resposta a novos surtos e a reduzir impactos econômicos e ambientais.

O sequenciamento estabelece ainda uma base científica sólida para pesquisas colaborativas e para a formulação de estratégias preventivas no mercado de plantas ornamentais, consolidando a cooperação entre instituições de pesquisa e produtores como elemento-chave para antecipar riscos sanitários e garantir a continuidade da produção no país.

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