O dólar encerrou a terça-feira, 10, cotado a R$ 5,20, com leve avanço frente ao dia anterior, quando a moeda atingiu o menor patamar desde maio de 2024, ao ser negociada a R$ 5,18. No acumulado de 2026, o dólar registra desvalorização de 5,8% frente ao real. Em doze meses, a perda chega a 10,1%, refletindo um ambiente de maior entrada de capital estrangeiro e fortalecimento do Real.
Diretamente expostos às oscilações cambiais, produtores rurais acompanham de perto esse movimento antes de definir estratégias comerciais. A valorização do real tem impacto direto sobre a formação de preços da soja e do milho, além de influenciar os custos de insumos e a rentabilidade da safra.
No aspecto da rentabilidade, Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, explica que o real mais forte reduz o valor recebido em reais por cada dólar exportado. “Mesmo com Chicago em níveis razoáveis, o câmbio acaba reduzindo os ganhos do produtor, especialmente na soja”, diz.
Margens de lucro comprimidas no campo
Pliego esclarece que a valorização do real frente ao dólar vem sendo observada desde o último ano, sendo sustentada por juros elevados no Brasil, inflação controlada e maior previsibilidade da política econômica, fatores que, segundo ela, aumentaram a atratividade do País para o capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento global do dólar, com o fim do ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos, reforçou esse movimento.
Na prática, esse cenário tem comprimido as margens do produtor, especialmente na soja. Conforme a consultoria, a paridade de exportação permanece baixa, girando entre R$ 95 e R$ 100 por saca em importantes regiões produtoras. O cenário é resultado da combinação entre Chicago próximo de US$ 11 por bushel, prêmios reduzidos e um câmbio menos favorável. “Mesmo com preços internacionais relativamente estáveis, o real mais forte faz com que cada dólar exportado renda menos em reais. Isso pressiona diretamente a margem e coloca muitos produtores bem próximos do ponto de equilíbrio”, afirma Isabella.
A pressão sobre a renda se intensifica diante do aumento dos custos de produção, que avançaram, em média, entre 7% e 10% em relação à safra passada. Com preços cerca de 10% inferiores aos do mesmo período do ano anterior, a margem da soja 2025/26 caiu, reduzindo a capacidade de absorver riscos.
Nesse contexto, a especialista aponta para estratégia comercial mais defensiva, com vendas parciais, escalonadas, e o uso de instrumentos de proteção de preços e câmbio. “Não é um mercado que remunera a venda total da produção no curto prazo, mas ficar totalmente exposto também aumenta o risco financeiro. O equilíbrio entre liquidez e flexibilidade é fundamental”, afirma.
Milho encontra sustentação no mercado interno
Diferentemente da soja, o milho apresenta uma dinâmica distinta em relação ao câmbio. O crescimento consistente do consumo doméstico, impulsionado pelas cadeias de proteína animal e pelo etanol de milho, mantém os preços internos frequentemente acima da paridade de exportação.
Mesmo com o dólar mais baixo, a demanda interna segue como principal fator de sustentação. “No milho, o câmbio não se traduz automaticamente em melhor preço ao produtor. O que realmente dita o mercado é o ritmo de consumo interno. O risco aparece apenas em cenários de safra muito grande, quando a oferta supera essa demanda”, avalia.
Nesse contexto, a analista avalia que, para o primeiro semestre, a colheita de uma safra volumosa deve continuar pressionando as cotações. Já o segundo semestre tende a oferecer melhores oportunidades, com maior protagonismo das exportações e maior sensibilidade de Chicago ao risco climático nos Estados Unidos. “A decisão não deve ser tudo ou nada. Vender parte para garantir caixa e manter outra parte flexível permite atravessar esse período com menos exposição e mais capacidade de capturar oportunidades ao longo do ano”, observa.
