A situação da economia agrícola nos Estados Unidos (EUA) acendeu a preocupação de ex-lideranças do setor no País. Na última semana, um grupo bipartidário enviou uma carta ao Congresso alertando sobre o que eles chamaram de “efeito prejudicial e cumulativo” que as políticas da administração Trump estão causando sobre os produtores rurais e sobre a competitividade da agricultura norte-americana a longo prazo. O grupo aponta ainda o Brasil como o principal beneficiário pela crise no setor agrícola dos EUA.
No texto, assinado por ex-líderes de associações americanas de commodities agrícolas e de biocombustíveis, líderes rurais e ex-funcionários do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o grupo destaca ter passado toda a carreira trabalhando para construir a agricultura dos EUA e, agora, estão “consternados com os danos que estão sendo causados aos agricultores americanos”.
Segundo o comunicado, as falências de produtores rurais dobraram no País e os Estados Unidos enfrentam um déficit histórico na balança comercial agrícola. “Esses indicadores refletem uma reversão abrupta em relação aos superávits recordes de exportações agrícolas e às altas rendas no campo observadas apenas alguns anos atrás”, traz a carta, ressaltando que quando os agricultores americanos sofrem, toda a economia é impactada.
Diante do cenário, o grupo afirma que o Congresso norte-americano precisa se posicionar em defesa dos agricultores se quiserem “evitar um colapso generalizado da agricultura americana e das comunidades rurais”.
Razões para o colapso agrícola nos EUA
Conforme o documento, são diversos os motivos que desencadeiam o agravamento da crise no campo norte-americano. Mas, segundo o grupo, está “claro que as ações da atual Administração, somadas à inação do Congresso, aumentaram os custos dos insumos agrícolas, desorganizaram mercados internos e externos, privaram a agricultura de uma força de trabalho confiável e retiraram financiamento de pesquisas agrícolas e de equipes essenciais”.
Um dos pontos indicados é o aumento de custos. A carta aponta que, ao impor tarifas sobre insumos agrícolas — de fertilizantes a defensivos e peças de máquinas — a Administração Trump elevou os preços desses produtos e empurrou os custos de produção para patamares muito acima dos preços das commodities.
Embora o grupo reconheça como louvável a recente decisão de isentar fertilizantes importados de tarifas, os ex-líderes questionam por que o governo chegou a taxar esses produtos e por que ainda não avançou na remoção de tarifas sobre todos os insumos agrícolas.“Não faz sentido aumentar os custos de produção e retirar dinheiro do bolso dos agricultores americanos”, escrevem.
Há críticas ainda às políticas comerciais adotadas, tanto na atual administração Trump, quanto no mandato anterior. O texto lembra que, uma das primeiras ações do atual presidente ao assumir, em 2016, foi retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífica (TPP).
A American Farm Bureau estimou que esse acordo teria aumentado as exportações agrícolas dos EUA em US$ 4,4 bilhões por ano. “Na época, os agricultores aceitaram essa perda [retirada dos EUA da TPP] na expectativa de que seria mais do que compensada por novos acordos bilaterais com outros países. Infelizmente, essa expectativa não se concretizou”, dizem.
O grupo cita ainda a falta de apoio adequado aos biocombustíveis, cortes no quadro de funcionários do USDA e na pesquisa agrícola do País entre as causas de um possível colapso no setor agropecuário norte-americano.
Comércio com a China e Brasil ganhando espaço
A relação com a China também foi mencionada. No documento, o grupo recorda que, em 2018, quando as tarifas chinesas foram impostas, a soja americana em grão representava 47% do mercado mundial. Hoje, representa apenas 24,4% — uma redução de 50% na participação. Enquanto isso, a representatividade do Brasil no mercado mundial de exportação cresceu mais de 20%.
As perdas não se restringem apenas à soja, aponta a carta. “O Brasil foi o grande vencedor dessas guerras comerciais, tornando-se o principal exportador agrícola do mundo, líder em soja, algodão, carne bovina e frango. Mas outros países, como Argentina e Austrália, também ocuparam esse espaço”, afirmam.
Segundo o grupo, “os Estados Unidos simplesmente deixaram de ser vistos como um fornecedor confiável”. Nesse contexto, a coalizão dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é citada pela rápida ampliação de participação nos mercados agrícolas globais e pode se tornar, segundo a avaliação dos signatários, a maior ameaça isolada à agricultura americana.
Apenas neste ano, a União Europeia anunciou a criação de um grande bloco de livre comércio com os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), enquanto no mês passado o Canadá anunciou um novo acordo comercial com a China. “Retórica beligerante e políticas comerciais caóticas levaram parceiros tradicionais a questionar a confiabilidade dos Estados Unidos como parceiro comercial e a recorrer a outros países para estabilizar o comércio internacional”, ressaltam na carta.
Soluções
Apesar do cenário pessimista, o grupo indica que ainda não é tarde para mudar o rumo dos danos causados pela administração Trump. Para isso, eles pedem que o Congresso norte-americano adote algumas medidas para começar a restaurar a economia agrícola americana a uma base estável e confiável. Sendo necessário:
- Isentar imediatamente todos os insumos agrícolas de tarifas;
- Revogar tarifas que estejam prejudicando os mercados de exportação agrícola dos EUA;
- Aprovar a Autoridade de Promoção Comercial para permitir acordos comerciais livres, significativos e executáveis;
- Priorizar negociações de acordos comerciais vinculantes com países que necessitam de produtos agrícolas dos EUA;
- Concluir rapidamente a revisão do USMCA [acordo entre EUA-México e Canadá], resolver favoravelmente a disputa pendente com o Canadá no setor de laticínios e garantir a extensão do acordo por mais 16 anos;
- Aprovar legislação para viabilizar E15 em nível nacional, etanol o ano todo e combustível sustentável de aviação;
- Aprovar uma nova lei agrícola dos EUA, conhecida como Farm Bill;
- Aprovar a reforma da mão de obra rural, incluindo mudanças no programa H-2A;
- Restaurar o financiamento para pesquisa agrícola, pessoal essencial do USDA e programas de ajuda alimentar nacionais e internacionais.
“Ouvir diretamente os agricultores é um primeiro passo essencial para restaurar a saúde econômica de curto prazo e a competitividade de longo prazo da agricultura americana”, finalizam.
