Símbolo da Amazônia e fruto de forte valor cultural e histórico, o guaraná segue com produção concentrada principalmente no Amazonas e em estados vizinhos. O ranking dos 20 maiores municípios produtores da Região Norte em 2024 não inclui nenhuma cidade acreana, cenário que chama atenção diante da ligação histórica do fruto com a floresta amazônica.
O levantamento aponta Maués (AM) como líder isolado da produção regional, com 444 toneladas de sementes colhidas no período. Na sequência aparecem Presidente Figueiredo e Urucará, também no Amazonas, consolidando a hegemonia do estado na cadeia produtiva do guaraná.
Planta nativa da floresta amazônica, o guaraná é conhecido e utilizado há séculos pelos povos indígenas, especialmente pelos Sateré-Mawé, considerados os guardiões tradicionais da cultura do fruto. Muito antes da colonização, os indígenas já dominavam técnicas de processamento das sementes, transformadas em bastão e pó para consumo. O primeiro registro escrito sobre o guaraná data de 1669, quando o padre jesuíta João Felipe Bettendorf descreveu seu uso ao longo do rio Amazonas.
No cultivo agrícola, o guaranazeiro é adaptado à forma arbustiva, embora na natureza se desenvolva como cipó trepador. Os frutos, de coloração avermelhada e aparência que lembra “olhos abertos”, carregam forte simbolismo cultural. Rico em cafeína, o guaraná é reconhecido pelo alto valor energético, sendo as sementes a principal parte aproveitada após processos de fermentação, torrefação e moagem.
No Acre, a produção ainda é considerada tímida para figurar entre os maiores produtores da Região Norte. O cultivo está concentrado principalmente no Vale do Juruá, com destaque para os municípios de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima. A ausência no ranking regional evidencia limitações relacionadas à escala produtiva, estrutura de beneficiamento e acesso a mercado.
Ao mesmo tempo, o cenário também aponta oportunidades para o fortalecimento da agricultura familiar, expansão do cultivo e agregação de valor ao produto, especialmente em regiões acreanas com tradição no manejo de espécies amazônicas. A valorização de cadeias produtivas regionais e o investimento em organização produtiva podem ampliar o protagonismo do estado na produção de guaraná nos próximos anos.
