Safra recorde no Brasil expõe desafios para o agro no Acre

Clima, logística e dependência externa limitam avanço da produção local

Luiz Eduardo Souza
Alta na colheita de milho impulsiona safra de grãos no Acre, segundo dados do IBGE. Foto: Diego Gurgel/Secom

Enquanto o Brasil caminha para a maior safra de grãos de sua história, estimada em cerca de 353 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, o Acre segue com participação tímida no cenário nacional. O dado, evidenciado no 4º Levantamento da Safra Brasileira de Grãos, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), reforça que, apesar do crescimento gradual da produção no Norte, o estado ainda enfrenta entraves estruturais que limitam sua inserção no mercado de grãos.

O relatório mostra que mais de 80% da produção brasileira continua concentrada no Centro-Sul, enquanto Norte e Nordeste respondem por cerca de 16% do total nacional. Dentro desse contexto, o Acre aparece com baixa representatividade em volume, ao contrário de estados vizinhos como Rondônia e Tocantins, que avançaram na consolidação de áreas produtoras de soja e milho.

Um dos principais fatores que ajudam a explicar essa diferença está nas condições climáticas. A Conab destaca que chuvas irregulares e períodos de estiagem pontual afetam o desempenho das lavouras em diversas regiões do país — realidade ainda mais sensível no Acre, onde o excesso de chuvas em determinadas épocas compromete janelas de plantio, dificulta o manejo e impacta diretamente a produtividade.

Além do clima, a logística segue como um dos maiores desafios para o estado. A distância dos grandes centros produtores e consumidores, aliada à dependência de rodovias e à limitada capacidade de armazenagem, eleva os custos de produção e reduz a competitividade do grão produzido localmente. O próprio levantamento da Conab aponta que safras volumosas pressionam o sistema logístico nacional, cenário que afeta com mais intensidade regiões periféricas como o Acre.

Mesmo com produção modesta, culturas como o milho cumprem papel estratégico para o estado. O grão é fundamental para o abastecimento da cadeia de proteínas animais, como avicultura, suinocultura e pecuária leiteira, ajudando a reduzir a dependência de insumos vindos de outros estados. A safra nacional elevada pode aliviar preços, mas também evidencia a vulnerabilidade do Acre à oscilação de custos externos.

O documento da Conab reforça ainda que o debate sobre grãos não se limita à produção em larga escala, mas envolve segurança alimentar e abastecimento regional. Nesse contexto, a produção local, mesmo em menor escala, ganha relevância estratégica para o Acre, especialmente diante de variações climáticas, custos logísticos e instabilidades de mercado.

Para especialistas, o avanço do agro no Acre passa por investimentos em assistência técnica, infraestrutura, regularização fundiária e políticas voltadas à adaptação climática. Enquanto o Brasil celebra números recordes, o estado observa a safra nacional como referência e desafio, buscando caminhos para fortalecer sua produção e reduzir a dependência externa.

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